21.02.08 - 18.04h: Last-time



Alguém anda a fazer mudanças lá em cima...

Enquanto mudo o rolo de papel que acabou e puxo a descarga do autoclismo, o som rebombante dos trovões prolonga-se num continuo de arrastar cirros compactos, chocando uns contra os outros donde chispam faíscas até à linha que acompanha os montes salpicados de casario branco.

Sob um céu carregado de azuis e cinzentos escuros com laivos de luz entre as massas densas, serpenteia o rio de lama a encher até ao interior da serra, alagando os sedentos vales dos baixios. A chuva que cai a medo vai encharcar as charnecas povoadas de pinhais e eucaliptais dispersos, erosionando arribas e alimentando regatos em crescente para os prados e searas verdejantes que começam a despontar...



Hoje começou a primavera – Estão as paredes e o ar cheios de insectos!

Do facto de não estar a fazer nada (fui levar um semi-lanche à Joana), de ter comprado um jornal para ler os títulos ao balcão do Tarro e à beira do Cais, dos patos nadando em “V” no centro do líquido acastanhado que corre contra eles, de ter fotografado este cenário em panorama, dos cigarros enquanto atravessava a rotunda do chaparro de metal, de fugir de carro para casa para tirar a roupa do estendal, de beber o café frio do almoço, neste momento o que me apetece é ver surgirem letras no ecran.

E afinal não chove! A música grita a convidar-nos a sentir ossos contra ossos, a nadar juntos... A vida teima em não correr, não passar (tenho de tirar o relógio de artesanato feito pela magnífica formanda já falecida de cancro!): o processo contra a fundação, o subsídio de desemprego pois não tenho dinheiro, um trabalho de rotina para manter a independência de residência (todos estão a mudar de casa e a minha anseia para breve...)e os velhos amigos a voltarem à cidade, renovados por esta metade de década.






Desce suavemente pelas subtis valetas junto às casas da minha estreita rua, água. Transparente, sem a força do aguaceiro a impedir a visão, na calma da tarde sombria, impregnando lentamente a humidade, tornando o asfalto escorregadio, permitindo uma flora mínima implamantar-se entre as fissuras...

Ao telefone a minha ex-colega, esposa de pastor evangélico, pede-me contactos da Zambujeira do Mar (estavam nos meus registos!)e como não foram feitas inscrições faltam-lhes ainda atingir esse local (objectivo de um Centro Novas Oportunidades: fazer com que o maior número de indivíduos elaborem um portefólio - decorativo para o básico, “um pouco” reflexivo para o secundário – sobre as suas “vagas” competências de modo a contribuir para uma irreal taxa de escolarização nas estatísticas governamentais e um despertar gradual do valor e novas funções da escola “para Todos”); esperemos que se estrepem contra o aumento de analfabetos funcionais, mas, de positivo, que esta vontade social de autocracia seja reflexa do interesse pelas matérias da civilidade e da participação democrática.

Pois, atento às novidades ambientais e aos progressos vindos de acasos, leio mails buscando colaboradores de vendas e monitores desportivos - quero voltar ao trabalho com crianças, pequenos projectos integrados, quero exprimir-me pelo sapateado (1, 2, 3, 4 da Feist), levar o Documentário 239 à Fábrica do Braço de Prata, quero estar mais perto da Arte, desenhar, pintar, sonhar em formas fantásticas... Quero festas e música, gente a dançar!







Na saudosa casa velhota, com os sacos dos últimos têxteis (roupas e cobertas, tapetes e chumelas) no pequeno quarto escuro iluminado por telha-sol, com o banco azul e uma caixa de plático da mesma côr contendo em cinco vasos o meu mundo vegetal, à janelinha, por onde vejo as intermitentes e fracas gotas que vão turvando o meu horizonte, estou fazendo o porro.

Do banco azul vejo a cadeia no alto da colina e os pombos columbofilamente educados a escovoaçar em bando, oiço o Antony e penso nas únicas vezes que esta sala teve meus parceiros a partilhar abraços mais quentes. “All those beautiful boys, tatoos of ships and tatoos of tears”...




Espero a Olga para lanchar. Já não chove mas a luminosidade vai-se.

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