22.10.04 / 24.10.04: WWWEnd*



Viernes, 22


Uma qualquer tarde de Outubro, não fosse o relativo entorpecimento da vontade depois do regresso já desejado e quase impedido da voraz Buenos Aires. E depois da manhã esclarecedora de todo um édipo confuso, e de mais um desafio - a condução de veículos motorizados de quatro rodas, ou tornando o objecto mais específico, o Volkswagen Jetta do pai (ao qual prometo que posso tornar-me um bom condutor, inclusive de taxis) – meter as mãos na terra recém-revolvida para enterrar um frasco e uma jarra cheia dos crisântemos que restaram do funeral da avó. Todos os ramos e uma coroa de flores fúnebre, quase todas apodrecidas pelas recentes chuvas, foram para o contentor do lixo ao lado das paredes do cemitério renovado: mais de metade do muro frontal foi abaixo e construiram sobre o pátio elevado a miradouro, mais gavetões de betão e ergueram um novo muro bloqueador das vistas sobre a aldeia, mas telhado pela abóbada celeste e campestre. Do último ramo da dúzia que deitei lá, guardei um cartão de “eterna saudade” no bolso traseiro dos jeans, que não apresentava assinatura do remetente. Ao fundo, um cipreste magro como única referência da campa do avô entre os outros (perdi-me e tive de perguntar à mãe) e ali estava a sua fotografia, com o cabelo pintado que apertava o seu manso rosto, no mármore em forma de livro com o epitáfio, sobre outro do mesmo tamanho, enterreirado, e mais um molho floral descomposto na jarra apertada pelas duas pedras para não cair. A mãe acrescentou à jarra que preparava para o avô uma rosa que surgia numa das plantas ali colocadas para embelezar o novo passeio aberto e a minha veia comunista fez-me alertá-la para o facto de que se disseminasse o acto, acabaria o prazer comum de disfrutarmos juntos a “alegria” daquelas flores. “É só esta!”. Sob os raios febris, fomos limpando o monte de terra sobre um caixão deposto há mais de duas semanas (na tarde antes da atrasada festa de despedida que me fez perder o avião) e, com um trapo tirado por ali, a vedação de alumínio circundando a descrita lápide com cinco anos de presença. Tentei acender a primeira vela retirando a água e até mudando-a da cabeceira da avó (só indicada pelo nº 37) um pouco mais para a direita por causa do vento mas este não permitiu; a segunda foi a mãe que a ofereceu a uma das três senhoras que por ali também estavam (e que obrigatoriamente nos deram os pêsames) para colocar dentro da gaveta do seu ente falecido – o que recusou depois de uma das senhoras explicar que viu um vidro estalar, mesmo com o argumento dado pela mãe de que agora as janelas tem um respiradouro, colocando-a no piso, junto à janela – e que também apenas se manteve acesa por poucos segundos. A última foi acesa já depois de colocada dentro da lamparina e inclinada para que a chama do isqueiro lhe chegasse e com um pequeno toque, voltou à posição vertical. Apenas o avô teve direito a uma pequenina chama velatória.




À volta para cá, sempre acompanhados pelo autocarro que vai levar as crianças da escola aos seus montes, parámos no vendedor-ambulante, na entrada da aldeia (que já havíamos visto à partida) para a mãe comprar flores de plástico. Como sou contra, neguei-me a ir e nem sequer saí do carro. Voltou com dois ramos de brotos vermelhos. Dei a volta às duas ruas principais e à igreja e encostei ao passeio paralelamente, a poucos centímetros. Quase perfeito, depois de muitos arranques e inversões feitas como se nunca tivesse tocado num volante (tenho sempre o pé colado à embraiagem, já me dizia o instrutor e a mãe volta a repetir o mesmo) e uma, já habitual derrapagem à “três duques” feita no ramal do Giões, ultrapassado depois pela âmbulância da Cruz Vermelha. Os nervos à flor da pele já testados de manhã, saltaram de novo no volume da voz da mãe e na ruborosidade e expressão assustada manifestas na sua cara. Travei, e voltei a deixar o motor ir abaixo a seguir à manobra arriscada (as consequências de derrapagem e capotagem lembradas aos gritos). Pensei: “Isto não é para mim!”. Sorri com ironia para o destino. “Não sou capaz de fazer nada direito.”

E de volta as frases da manhã, enquanto olhava da varanda os cravos túnicos (os cempasúchis dos altares mexicanos para os mortos): “Isto são reacções de um Homem? São atitudes, palavras de alguém com juízo? O mundo não gira só à tua volta!” Palavras com raiva, de muitas mágoas guardadas e tristezas contidas, discursos ao alto sem interlocutor, ambos desviando olhares até que a mãe se aproxima depois de um pranto contínuo por meia hora, penitenciando-se por toda a sua família, por o que fez e o que não fez, julgando-se enquanto escrava da vontade alheia e aí sim: o abraço catársico e conclusivo, um rio de lágrimas descorrendo declarações de amor mútuo. No rescaldo, terapia de afazeres domésticos: limpar as campânulas do candeeiro do tecto do seu quarto, lavar a loiça de dois almoços e um jantar, limpar o balcão, arrumar a mercearia no armário, organizar as fruteiras e pôr a mesa porque a tia estava quase a chegar (e lavar os olhos porque ninguém tem nada a ver com o que se passa em casa – depois da discussão berrante com as janelas abertas).





Sabado, 23

Ontem, ainda antes de me deitar, nu, olhei as constelações que brilhavam no límpido firmamento acompanhado de um cigarro à janela (sem portadas), depois de colar a antiga armação ocular (que me pareceu tão leve e frágil, também pela pequena dimensão de cada lente com espessura reduzida e alargada pelos múltiplos adormecimentos sem a retirar) e de uma análise ao livro de Laudes e Vésperas dos tempos de seminário do meu irmão. Já deitado, e por todo o dia anteriormente descrito, senti um espírito de bondade universal invadir-me e recordei o meu pai, por grande coincidência (dos seus primeiros tempos de casado e da minha adolescência, e dos anos que antecederam a descoberta da doença e posterior internamento) e minha vontade aquando da sua morte, eu, na sua cama.



Adormeci perto das cinco da madrugada e acordei por volta das onze.

O irmão chegou pela uma desta nova tarde, também quente, no seu fato de treino de relaxe para uma semana de férias. Almoçámos a sopa cheia de legumes e a carne de vaca guisada com macarrão preparadas nas duas horas intermédias pela mãe (entre o meu despertar e durante um banho de cuidado que me regalei), depois de uma breve passagem de olhos por todos os jornais de sábado que ele trouxe – o velho costume paterno herdado (ele até nem os tirou do carro logo que chegou para não me demorar a sentar à mesa, que é minha mania). Fomos os três ao café mais longe, já fora da aldeia, sentámo-nos na esplanada e a mãe elogiou o café à empregada ucraniana que lhe propôs como solução começar a fazer a caminhada até ao lugar diariamente para fazer mais exercício e sempre apreciar o melhor sabor. Cumprimentar os conterrâneos à entrada e à saída, a boa educação com pouca disposição, melhorada pelas condições climatéricas.



No regresso encontrámos o neto... (bem, aqui perderia uma quantidade de linhas a descrever graus de parentesco e cafés e profissões de todos os familiares, que se entrecruzam por estarmos numa aldeia) ...do senhor do café mais próximo ao qual sempre íamos juntos e ao qual o pai pedia para ir colher figos à sua horta, de manhãzinha, e que o próprio oferecia em grande abundância nos idos anos em Setembro. E pelo breve diálogo no qual o meu irmão pediu uma moto-serra e a sua ajuda, percebi que tínhamos como tarefa para as próximas horas aniquilar o damasqueiro podre do nosso quintal. Só acreditei no facto quando confirmei que os rebentos que via da cozinha eram antigos e estavam secos, bem como a proliferação de fungos e líquenes e, já perto, todos os ramos e troncos microperfurados pelo bicho. Utilizando o equilíbrio, um pouco da lógica de Newton e a perícia do moço no manuseamento daquela ferramenta deveras ruidosa e cortante (eu também vi algum pânico na cara do meu irmão e o nosso maior afastamento, que diminui com o aumento da confiança no final da primeira hora), fez com que o decompôr daquela grande estrutura orgânica, que outrora dera tantos albricoques suculentos - o princípio do Verão era assinalado pela sua queda e uma circulação infinda de formigas pela casca da árvore até à polpa alaranjada e mole dos frutos, suspensos ou aplastados no chão - fosse uma tarefa árdua e “talvez recompensante” pela madeira para a lareira dos avós do rapaz. Afinal já deu muita semente...






Dos mais curtos ramos laterais até aos mais compridos e pesados, que pendiam para a propriedade do lado, com o cuidado de não deixar que caíssem sobre os diospiros quase maduros da Tia Parreira, estivémos os dois irmãos como Humpty-Dumptys (eu até pulei o muro para esperar a queda e retirada de mais uma pernada no outro lado), enquanto o hábil e jovem vizinho subia e descia o escadote, seccionando pouco a pouco aquele ser já sem vida. Para a última (e a mais grossa) coluna vegetal, foi decidido retirá-la arrancando-a do solo, separando-a das suas entranháveis raízes; e para tal começaram a cavar ao seu redor com o sacho que forçosamente fez uma vala e mais facilmente cortou as partes ocas e pútridas das umbilicalidades da planta. Participei um pouco nesta parte e depois, empurrando juntos com o balanço o já pouco firme tronco que por fim tombou, e erguendo-o e repetindo a acção para o lado oposto, este se separou de vez da base que o sustentava. Subi cheio de serradura fresca sobre a roupa e cabelo e com os pés colados pela lama às sandálias, quase sem fôlego, lavei as mãos no lava-louças e deixei-me ficar sentado na poltorna da sala, vendo as revistas do dia, intervaladas pela contínua emissão televisiva e o intermitente som do corte vindo lá de baixo – as janelas sempre abertas, à noite a mãe dorme com o mata-moscas ao lado.



O jantar foi o mesmo do almoço com os tios e os primos na casa dos avós, por eles ocupada, na outra aldeia (onde nasci). Bebemos vinho caseiro; a tia e os primos acharam o macarrão com carne muito picante (o mais novo, porque foi comer depois de todos, originou a cena cómica de comentar isso mesmo, e de todos já termos as desculpas discutidas para repetir como resposta: “é da banha e do cravinho!”, ou “não está nada, bebe mais coca-cola!”). Café com jornais para sobremesa e passeio a pé para desmoer. Chegados à porta de casa, cruzámos viaturas - era a Guida que comeu em minha casa uma sopa enquanto eu tomei novo banho, fomos a Mértola beber um copo e falámos das viagens e do sentido da vida.



Domingo 24

Já sentiram incómodo pelo facto das pessoas que falam convosco utilizarem tantas moletas e lugares-comuns, ditos e frases feitas (queres desligar e as palavras não saem, com medo de as reproduzires assim, e elas continuam e não consegues deixar de seguir escutando)? E também assustados com o avanço tecnológico, violência, morte e guerra, hipocrisia política misturada com demagogia e interesses privados, a demasiada relevância mundial do factor económico, a imparável explosão demográfica e o “onde é que vamos parar?”. E digo parar literalmente falando: quando é que travamos a fundo (com embraiagem)? Penso no exílio ou em tornar-me ermita, num lugar profundo e elevado. Pronto! Já começou a minha contradição, o meu mal de nascença, de ver o feio na admiração com que os outros comentam alguma coisa que consideram bem ou bom, e o desculpar, justificando-o na minha controversa racionalidade, o que eles tanto criticam (por vezes de forma colérica, quando me parecem meras futilidades). Irrita-me o quotidiano e gosto do tique-taque dos segundos de um relógio em pleno silêncio – marcou-me a visão cinematográfica d”As Horas” (e escutar a banda sonora no Ateneu, na
calle Florida, num leitor múltiplo digital, entremeado pelo gosto clássico do Eric).




Por vezes suponho-me no disfarce de esquizofrenia da Woolf (a mãe, em mais uma tentativa de compreensão, comentou a notícia de que esta enfermidade está relacionada com a idade do esperma paterno; eu ri-me e neguei-o mas não sei... é como com as bruxas...), digo à Guida e ouço-o (me) na minha voz dizendo que não caio, que plano entre os humores maníaco e depressivo, que só preciso de saber o que quero fazer e aí aplicar todas as energias, que isto é um arrastamento da cronicidade da minha situação, que “there’s more to life than this” – que agora escuto. Cada vez aprecio mais o trabalho da Björk e do Thom York
e a sua evolução, que dá os sinais previsivos da sociedade globalizada desta espécie condenada a uma era de aquário explosiva e individualizada, que ainda tem de se iconoclastar muito mais.





Hoje amanheceu mais fresco e as nuvens acumularam-se ao entardecer. Quando a mãe saiu para a missa (daqui a dois fins-de-semana comemoramos o primeiro mês da avó e o primeiro ano do pai e por isso considerou uma boa altura para o regresso às celebrações comuns, se bem que me perguntou se ia muito decotada pelo casaco do fato. “Tem alguma coisa por baixo?” Ela respondeu que não, eu desaprovei, sugeri uma blusa mais fina já que tinha calor, foi trocar-se e eu preocupei-me pelo seus desejos, pelo futuro e vi os meus genes), o irmão perguntou-me se tinha ido às salas de baixo pois os gatos entraram pela porta “en el olvido de su cierre” e deitaram uma gaiola abaixo onde apenas ficou um periquito, o outro voou ou foi comido segundo a sua hipótese, o que foi confirmado pela prova de uma asa encontrada pela mãe na varanda. E a suspeita dos gatos que vão deixando o seu rasto macabro – ontem foi uma cabeça de rato! – e que têm nomes humanos e que a mãe insiste em falar com eles dessa forma, numa infantilidade como se os bichos entendessem ordens e tivessem esta absurda complexidade emocional e linguística, apenas denunciando a sua solidão e permanente necessidade de carinho. Aqui estamos. Os três (como um grupo de amigos, como personagens de literatura juvenil, de aventuras) com seis gatos de personalidades distintas – por falar neles, o Quico de há duas gerações atrás (é que são várias gerações por ano) reapareceu há quatro dias depois de dois (ou mais) meses de ausência pela nova ninhada da sua irmã que o expulsou para não assassinar os seus pequenos sobrinhos – quatro canários, dois periquitos e algumas dezenas de rolas (bravas, brancas e de colar), duas laranjeiras (uma é sobrevivente de uma enxertia mal feita), um limoeiro, uma nespereira e um abacateiro num casarão cor-de-rosa. E vivos!



Ontem a descrição do Astrólogo da sua almejada sociedade dividida e apocalíptica, um d”Os Sete Loucos” de Roberto Arlt, e o delicioso início de um amor n”O Jardim do Éden” do Hemingway; hoje uma comédia medíocre da adaptação do Tarzan, o jogo do S.L.Benfica, depois os Simpsons, a seguir: um director musical motoqueiro no São Carlos, a Imago do Fundão com gente bonita, música, arte e filmes, três projectos digitais de vídeo, uma instalação com cadeiras, uma loja de All-Stars e sapatos vintage no Porto, a música dos i-uik-project, tudo isto como conteúdo do Pop-Up. E ainda o 1, 2, 3 com a Teresa Guilherme, o jogo do F.C.Porto, o quintal dos ranhosos em simultâneo com a quinta das celebridades, uma entrevista no clube dos jornalistas com o actual presidente da Gulbenkian e anterior presidente da Galp; por fim alguma coisa para terminar bem este dia – A Maldição do Escorpião de Jade.

Ufff... Isto tudo na televisão enquanto restaurava a media library deste computador, intercalado com uma tentativa da Guida para ligá-lo à Internet, muito cirandar pela varanda, salas e corredor, uma cerveja nas bombas de gasolina, dois bêbedos (um deles o famoso avô da miúda desaparecida da Figueira) a meterem-se em cena, e para terminar a visita de uma mãe vizinha que está a tirar unidades capitalizáveis (e fez serão aqui para a mãe lhe ajudar com os T.P.C.’s) comentado as suas motivações e a situação dos seus filhos – um deles homossexual desde quase bebé e que agora com 12 anos não quer voltar à psicóloga e já perdeu dois anos na escola por défice de atenção e por ser gozado pelos colegas – e interrompido nesta conversa pelo timing do irmão para ver o Herman e o Joaquim Monchique na televisão. Suspiro e volto às letras no papel.





Fim.


*Weak Wick Week End

Correntes