12.05.08 - 15.36h: Um tal de Júlio...

Myanmar, Fátima, Etna, Sichuan, o Rocío, o Diabo...

Inspirado por todos, o que também me passa, nestes dias de insatisfação intrínseca... (tradução livre do espanhol-argentino), em papel ou digital, whatever!


“Como não só escreve como também gosta de passar-se para o outro lado e ler o que escrevem os outros, Lucas por vezes surpreende-se com o difícil que lhe resulta entender algumas coisas. Não é que sejam questões particularmente abstrusas (palavra horrível, pensa Lucas que tende a pesá-las na palma da mão e a familiarizar-se ou a afastá-las consoante a cor, o perfume ou o tacto), mas de repente, há como que um vidro sujo entre ele e o que está a ler, de onde impaciência, releitura forçada, bronca à entrada e, no final, grande vôo da revista ou livro até à parede com subsequente queda e húmido plof.
Quando as leituras terminam assim, Lucas pergunta-se que diabo pôde ocorrer na aparentemente óbvia passagem do comunicante ao comunicado. Perguntar isso custa-lhe muito, porque no seu caso, jamais se põe essa questão e por mais rarefeito que esteja o ar da sua escrita, por mais que algumas coisas possam apenas vir e chegar no final de difíceis transcursos, Lucas nunca deixa de verificar se a vinda é válida e se a passagem se opera sem obstáculos de maior. Pouco lhe importa a situação individual dos leitores, porque crê numa medida misteriosamente multiforme que, na maioria dos casos, cai como um traje de bom corte, e por isso não é necessário ceder terreno nem na vinda nem na ida: entre ele e os outros dar-se-á uma ponte sempre que o escrito nasça de semente e não de enxerto. Nas suas mais delirantes intervenções, há, por sua vez, algo tão simples como o jogo do burro ou a bisca dos três. Não se trata de escrever para os outros senão para si mesmo, mas um mesmo tem que ser também os outros; tão elementar, meu caro Watson, que pela desconfiança, pergunta se não haverá uma demagogia inconsciente nessa corroboração entre remetente, mensagem e destinatário. Lucas olha na palma da sua mão a palavra destinatário, acaricia-lhe a pelagem e devolve-a ao seu limbo incerto; pouco lhe importa que destinatário tem, assim, no instante, escrevendo o que ele lê e lendo o que ele escreve, que se dane.”

Julio Cortázar – Un tal Lucas, 1979

(esta amostra de Terre d'Hermès deixou-me inebriado - só se fôr de vez em quando - ainda bem que as açucenas só florescem uma vez por ano, um cacho por pé...)

ID



Eu sou o passageiro, é a minha vida, único pertence que me leva para onde quero ir (mesmo que não saiba). Uma simples homenagem escrita pelas letras da sua matrícula, dez anos antes de o ter – escolhémo-nos há muito tempo atrás, Freud que o diga...


Impulso desejado
Inspiração duradoura
Intersecção direccionada
Inovação deontológica
Inerência democrática
Irrelevante desastre
Imortalidade dourada
Identidade delineada

09.05.08 - 16.43h: Atrás de Europa*

Estou parado.
O mecânico foi um querido e o bisnog também – veio visitar-me e seguimos para o bairro de táxi para buscar a bé. Uma birra ultrapassada pelo diálogo e compreensão. De volta ao pequeno mundo: travessa do jasmim, rua dos prazeres, andreia no largo de jesus, bissa e mike em assaltos virtuais, nuno na esquina dos armanzéns do chiado, M.O.em banca aos sábados na anchieta, com mano de metro. Passagem pelas comunidades...


Chove aqui.
Ontem desci de madrugada para colos, almoço no sr. Costa; hoje, última sessão antes das de avaliação em são teotónio (convidam-me para jantar de júri em grupo que acompanhei).
Ontem desci a odeceixe paramergulho rápido e sesta nu na areia. Comi e morri. Debato-me com a inspiração de free-lancer para artigo sobre a matemática em revista infantil. Almocei no clube grátis pelo M, saudações à cozinheira (minha formanda), o minivai buscar o seu actual ao expresso amanhã.

Agora faz sol.
Preciso de descansar. Saraivada em bragança, ruína das culturas (será que a seca já la vai?). Espero pelo visionamento da apresentação final na secundária. Não consegui entregar o currículo em mãos neste CNO.

* Sinto-me transformado (como o único zeus aqui) a correr pela vaca da minha vida! Será que a vou agarrar pelos cornos? –Tu também, carmo.

07.05.08 - 14.44h: RetroChic

Aceitando o desafio de pantufas, através deste site, foi o que me calhou... E eu que já sonho no recheio do velho ninho...
São ideias de (re)decoração! (em inglês, desculpem)

RETRO CHIC
You have a collector's eye for individual pieces that give your home a real sense of personality and style, that special je ne sais quoi. The overall look may be retro, but it's anything but kitsch; your innate understanding of what works together (not to mention the origin of each piece) embosses your home with an enduring elegance of its own which is neither overtly modern nor faux-period.
Living Room
Your outlook is shaped by a love of design from the recent past. The Europhile living room revels in style icons from the not-too-distant past. It's almost modern, but recreates a perfect mythical ideal of our parents' youth - of picket fences and bubblegum pop, ice-cream sodas and sleek classic cars with elegant tail fins. All of these details are useful design references for furnishing your living room: this is a look that is fun and optimistic, but also streamlined and knowingly nostalgic. Accessorising the room with a more classic look will certainly provide a counterpoint to more outre pieces of furniture, but beware of diluting the look too much or, indeed, over-egging it. Cool, vibrant colours make a living room feel fresh and airy, while glamorous prints and patterns are fun and stylish. Having worked wonders in the kitchen, you deserve a bit of quality time in the living room where you can relax and unwind.
Bedroom
It's a man's world in the master bedroom. Sleep is fundamentally important to our well being. In busy towns and cities, noise can often hamper a good night's sleep. Soft furnishings really do absorb sound, and touch is such an important sense in the bedroom, from crisp, linen sheets to wool or even sheepskin underfoot. You have quite a masculine - some might say hard - style in your bedroom, using earthy, rustic colours and textures to create a sense of harmony with the natural world.
Dining Room
You're a modern maverick, a supremely elegant entertainer. At home, you have a fresh, contemporary dining style that is versatile and achievable on almost any budget. Keeping the basics simple, try using colour or picking something a bit unusual to add character and to give the dining area some definition. Good design and quality materials can really lift a place setting. When it comes to entertaining, you like to pull out all the stops.
Home Office
You have a place for everything and everything has its place. No matter how independent you might be, like everybody else you'll have bills to pay. A dedicated home office will help you keep on top of the 'boring bits'. The modernist adage that form should follow function is nowhere better demonstrated than in the home office: keep things simple and add your own sense of style by using a splash of colour or a single, well-chosen decorative piece.
Conclusion
Your home is sharp and modern, but with a nostalgic nod to an idealised world in the not-too-distant past.

May Day

Dois meses no calendário e... nada.
Feriado na irlanda, grã-bretanha e holanda.
Lua Nova.
Boas viagens para toda a gente!

05.05.08 - 13.02h: 1, 2, 3, 4*



1.
Sob a humidade fervida e aconchegante do calor do sol, a terra desponta, desabrocha, desflora. Os bois (re)pastam(-se) no prado... Afluxo de gente para o equador, perco (ou ganho) uma hora em volta por coina por gasolina, mais duas paragens por café, jornal e água e corrida a castro por gasolina novamente.
Ontem a proposta da bissa, o passeio da vicki da lusófona à portugália por caña e galão, o filme dos quatro em jantar by monkas (totalmente), um bom hábito deste ano. A patética de tchaikovsky, colecta de jazz, bohemian like you, dandy wahrols, chill out by john lee hooker, janelas verdes – as portas abertas da multiculturalidade musical.

E contorno a rotunda do rosário. Atravessam a estrada de neves corvo atrás de pato, gente caminha nas bermas, os carros merendam debaixo da ponte em feriado, pássaros quase suicidas, igrejas isoladas.
Abraço duradouro, almoço sozinho e fazemos bolo enquanto falamos de estabilidade económica. “Vou viver quantos anos mais?” questiona-se a mãe; visita da guis-zottis com pai aniversariante também – café nos gagos con traduzione. A população gatil duplicou nas últimas semanas: a titi teve seis e a pretinha três. Durmo cedo depois do terceiro harry potter em espanhol.


2.
Amanheço também cedo para lavar o carro (já não vejo pelos pára-brisas), café no gonçalves com carmen. Agora sim, a natureza no seu esplendor! Atrás de transporte de camiões, vendo os bichos mortos, ultrapassar carroça de lenho puxada por burro e velhote, cão atravessa devagar na corte zorrinho, moiral correndo atrás de quatro vitelos desgarrados à entrada da aldeia dos fernandes.
Cópias pela rosa na inde, outra sessão com miúdos que pensam a cerveja como bebida dos “grandes” (e eles são!) e que conhecem os malefícios do tabaco – é tão bom pô-los a falar... Patraquim liga com presente e teatro; sabóia tem a maior taxa de suicídios da europa.

Assistência a parto porque alma está elaborando arqueologia para exposição, gémea no alto à minha espera (lavou, limpou e redecorou tudo,que linda!). A terapia do afecto e confiança feita por festas no pelo e ventre inchado de mamilos salientes em caminha de verga dos chineses, motivando, olhando, acarinhando a gata branca.
Afinal é hoje! Acelerar de volta para a capital para despedida de solteiro: jantar na mariquinhas, karaoke em la calle, dali camões, purex, lux (lolita saying boring!) e m-box (reencontro décio!) – tudo por pistas e charadas em fotografias. Até fechar! Pequeno almoço inconsciente com minerva. Juntos, todos, outra vez!

3.
Bebemos e fumamos demais! A pé, a casa da nora, acordar cristi (que vai a pina bauch), passear gira, english breakfast por jô com janet, sofá às dez. A resaquinha ao acordar sem planos, café no conde barão (e pedro e filhas), investida vitamínica com banhos, buscar carro esquecido e voltar para iniciar a segunda parte. Sempre brindes e surpresas!
A8 no auge do pôr do sol com três passageiros, encontro com os dois que faltavam à saída das portagens e seguimos a IP6 até à prainha escondida do lado direito da península do baleal (coincidimos!).

Iluminados por tochas em toalhas espalhadas na areia, jantamos frangos e bebemos minis, cantamos - continuam a chegar maravilhas...! Um céu óptimo! Disfrutamos e arrumamos tudo para bar ao lado, bruno’s beach de profunda electrónica e regresso desejado à irmã da lucas. Até de madrugada em jogos (brigadas e carregadores sagres) e danças à chuva, matrecos e música alucinógena (catita e oferta do noivo), cair na pista...


4.
Despertos na vivenda fresca por acidente despedaçante de chapa (tudo vai correr bem, bibona!), eficiente equipe de limpeza, os abraços e despedidas, as sandes vespertinas e o passeio costeiro pela baía de peniche, caldeirada na rua de trás, gaivotas espiam, a volta pelo forte e café (com dupla partida) sem não antes regressar ao local de sonho e fotografar outro ocaso com minerva.
Avaria na subida íngreme da IC16, sem saldo e quase sem bateria (e é só uma peça que se solta e faz disparar o conta-rotações...), fazem-me descer para pôr o triângulo e caminhar com o colete reflector até casa (ainda bem que ligaste, zé gato; desculpa cunhada! Obrigado mano!).

Já depois da meia-noite, acompanho o desesperado condutor do reboque até ao cacém e daí, o irmão a casa. Energias de rastos, aqui estou “a fazer pela vida” à vossa espera.



*... Tell me that You Love me More (dizem que me Amam Mais…) – afinal vou ver Feist, o casamento é só no fim-de-semana a seguir.

01.05.08 - 04.15h: Dia da Mãe

O primeiro dia de maio é o dia da mãe. Sempre foi. Hoje cumpre 60, teve-me aos 30. Foi uma miúda da aldeia a brincar com as pedras, o pai pastor ausente e a mãe, serva e orfã, que só conheceu a vida de trabalho doméstico e teve de criar seis filhos entre a ceifa, o pão, a lenha, a azeitona, o azeite. Cresceu em tempos de fome mas continuou estudos (e a cheirar o escape da carreira) no colégio de mértola e no magistério em faro. Voltou para a terra, tirou a carta (a primeira mulher do concelho), virou professora, perdeu os longos cabelos em corte à garçone, calçou botas altas, casou com o padre. Exigente e carinhosa, extremos de fúria e uma calma apaziguadora tornam-na deliciosamente bela (até os prazeres no nome).

Um orgulho - apesar do meu quebrar de afecto neste seio, melhorado pelo tempo. Amo-a pelo que gerou, pela forma de educar (claro que também me chateia às vezes – eu já me chateio menos), pelo sacrifício e pelas dores que tem e que toma. Fuma (começou aos vinte como eu e agora queremos parar). É uma viúva serena, isolada no seu palácio cor-de-rosa (“para quê ainda mais casa?”), a pintar, a restaurar mobília (a dança das divisões!), a alimentar os gatos e cultivar uma horta, com o sempre fiel sansão. Amo-a e é das grandes certezas o seu infinito e profundo amor por mim. Muitos Parabéns, Mãe, neste teu dia. No verão ofereço-lhe um lenço fúschia (é assim?).



Ah, também o é do trabalhador, dos sindicatos e outras convenções sociais. Tive dias plenos de mulheres (pretty womans!) que são assim: fazem-se!

29.04.08 - 21.26h: Trio d'Odemira 57/67

Do mundo secreto de peter gabriel, aos duetos nocturnos do frank sinatra, as ilustrações musicais de pintura pelo júlio pereira, os rock-blues ultra-românticos de roy orbison – esta é a actual banda sonora a k7 dos últimos vai-vens. A grande descoberta foram os mariachis alentejanos que cruzaram cancioneiro popular, tradicional alentejano, os hits latinos dos sessenta, rancheras mexicanas (puta coincidência), fado. Estive ano e meio aqui até ao desemprego e pé partido e já depois de sair estas gravações com cinquenta anos vêm parar-me aos ouvidos. E recordo amor, infância no banco de trás com a mãe a cantar as modas da altura, charradas puras...

Aqui vão os títulos: guantanamera; história de um amor; cartas de amor; el reloj; vocês sabem lá; perfídia; alma, coração e vida; ti ana majora; rio mira; ribeira mota; lembra-te ó ana; abalei do alentejo; camiñito; ruega por nosotros; una aventura mas; novo fado da severa; quiereme mucho; ciao amor; malagueña; sol nas minhas mãos; és a minha canção; as minhas mãos nas tuas; beija-me em sakurambô; a praia.

O meu trio de odemira foi este triângulo da vida – as gémeas e eu! As refeições partilhadas (mais na casa do lado, a tratarem de mim), os relatórios diários entre a câmara e a fundação (mais esta última, éramos dois em avalanche), as guerras de poder eternas e a nossa exploração, sempre a fazê-las em paz, a preta nina e a branca frida, adormecer no sofá, conspirarmos os conspiradores, almoços na varanda, cafés nas esplanadas, os Amigos (carlo de aniversário recente, mini, ana, manel, zaida, isabel e quim e rebento). Três copos à espera de vinho.

Orientar sessões de sensibilização para prevenção de toxicodependências em colos e são teotónio – correram bem; viagens com boleia dada e tida, cumprimentos e afectos recebidos pelas paragens pela vila (vizinhas, os homens dos cafés, adultos em reconhecimento de competências, a juventude criativa da região), roseiras em flôr nas esquinas, fôfos de amores-perfeitos nos canteiros pós festança rija de abril, o rio continua a correr suave e luminoso.

27.04.08 - 00.57h: Confesso

Confesso que amei (nem que fosse por breves segundos) Todos os homens com quem estive nesta Vida. Mas temos sempre chapadas de luva branca (inspirado pelo rapaz do calendário)


I'm not gonna teach your boyfriend how to dance with you - Black Kids

A Todos os Fiéis de relações abertas!!!

26.04.08 - 23.48h: Get Down, Get Down

Caros Amigos,
Faz uma semana do querido jantar em que nos vimos e desde lá muitas peripécias foram sucedendo até à eminente gripe que agora me cerca. Terça foi o último dia: queria um trabalho, tive-o (só falta pagar) e nessa noite deu-se ainda o reencontro com os irmãos delgado. Foi para o trabalho de sociologia da vida quotidiana que este blog ganhou o impulso concretizador (e agora outro wwwend!) – isto de nos auto-analisarmos numa prespectiva de acontecimentos, rituais, pensamentos e sentimentos, procurando chegar à influência dos outros em nós, ou ao que em nós nos torna todos, tem muito que se lhe diga. A loli adorou e não podia parar (não fui ve-la quinta às oito da manhã mas ela também disse que não foi muito interessante). O bruno foi aguardado, fumado e devolvido com mais vontade às sua ocupações actuais. Muito bom!

Quarta entra-se na espiral nocturna: buscar bissa para pequena saída-aniversário com gente dos states; voltas para fumar e estacionar, jantar na adega do minho na bica, reencontrar jesus à porta da brasileira, duarte nuno ao sul com adar e outro, conversa sobre judeus e televive e engenharia e futuro, cocktail de gente famosa com coentros, no cinco e esplanada em frente com aladan, clau e bé e francês e amigo (a energia dos egos pequeninos e a apatia consumada antes do regresso a berlim). A viagem para sul aos som das cassetes da emi: paragens, pressão dos pneus, beja como aldeia na busca da segurança social (em vidro, no lado oposto), odemira a rechear com celebrações, gémeas de surpresa, ténis no intervalo, vinho para a festa, ovos estrelados para combustível.

Até alte pela serra, ao lado da igreja, em obras, atendo à solicitação: lombo assado salgado, queimar todos os cartuchos, mini na fonte velha e regresso desmaiado com assombro pela revelação da infância. A esquecer! Percurso ventoso pelas rochas adjacentes, banho no vigário, ac/dc do meu nascimento, direcção quarteira com saudades da paulinha a prepararem despedida de solteiro do tigo, guis e zottis no aeroporto da capital e enviam-me para o trafal. Crusing com cozinheiro alemão para tarde felix. Toda a tarde nús no meio do campo até anoitecer. Jantar só no shoping, dormir no carro até ao regresso delas e pai e pina. Bombons italianos com recheio de licor, sofá e pequeno-almoço ao nascer do sol; perseguição amigável até casa, onde dormito de trombas. Tenho saudades vossas e também preciso de uma revolução.
Até já!



Extrañote vicki, oscar. Besos.

22.04.08 - 01.00h: À Terra, À Vida


Neste ponto minúsculo perdido no espaço, concentrado por fogo e dele formando rochas móveis que vão arrefecendo, coberto por gases que se movem sob a sua superfície e sobre ela se precipitam, abraçando estas camadas, fecundando-as num líquido puro e transparente, e onde milhões de células se juntam para formarem todos os organismos vivos que aí habitam, gira sobre sí próprio um grão de areia no universo de milhões de sóis. O seu valor é único para todos os imensamente ínfimos participantes que já tentam fugir dali pela criação de ainda mais artefactos que, se por um lado o permitem, por outro o levam à sua própria destruição. Mas sobre eles estão concentrados, girando sobre si próprios, neste mar de reproduções e extinções. de explosões de energia a buracos negros...


(pela efeméride deste dia, algumas considerações...)


Oda a La Vida


La noche entera
con una hacha
me ha golpeado el dolor,
pero el sueño
pasó lavando como un água oscura
piedras ensanguentadas.
Hoy de nuevo estoy vivo.
De nuevo
te levanto,
vida,
sobre mis hombros.

Oh vida, copa clara,
de pronto
te llenas
de agua sucia,
de vino muerto,
de agonía, de pérdidas,
de sobrecogedoras telarañas
y muchos creen
que ese color de infierno
guardarás para siempre.

No es cierto.

Pasa una noche lenta,
pasa un solo minuto
y todo cambia.
Se llena
de transparencia
la copa de la vida.
El trabajo espacioso
nos espera.
De un solo golpe nacen las palomas.
Se establece la luz sobre la tierra.

Vida, los pobres
poetas
te creyeron amarga,
no salieron contigo
de la cama
con el viento del mundo.

Recibieron los golpes
sin buscarte,
se barrenaron
un agujero negro
y fueron sumergiéndose
en el luto
de un pozo solitario.

No es verdad, vida,
eres
bella
como la que yo amo
y entre los senos tienes
olor a menta.

Vida,
eres
una máquina plena,
felicidad, sonido
de tormenta, ternura
de aceite delicado.

Vida,
eres como una viña:
atesoras la luz y la repartes
transformada en racimo.

El que de ti reniega
que espere
un minuto, una noche,
un año corto o largo,
que salga
de su soledad mentirosa,
que indague y luche, junte
sus manos a otras manos,
que no adopte ni halague
a la desdicha,
que la rechace, dándole
forma de muro,
como a la piedra los picapiedredros,
que corte la desdicha
y se haga con ella
pantalones.
La vida nos espera
a todos
los que amamos
el salvaje
olor a mar y menta
que tiene entre los senos.

Pablo Neruda - Odas Elementales 1954

20.04.08 - 22.53h: Why not now? (E fomos Felizes Juntos)

Ir de peito aberto, a tremer o coração no fundo dos bolsos, só porque são caras desconhecidas de formas já reveladas. Por isso simpatizamos (afinal já nos conhecíamos, só precisamos da fotografia do postal): e magros, gordos, altos, baixos, peludos, unfurry's, novos e velhos, homens e mulheres! Todos temos as nossas e mostrámo-las, mostrámo-nos! E contámos outros pormenores, e ouvimos o timbre de como nos saem as palavras, ao vivo (menos ou mais, rápido ou devagar - miudoso nervosinho!); pudémos abraçar-nos, vermos os corpos mexerem-se em tiques, posturas, ritmos diferentes. Todos. Olhos nos olhos!

E do caruso para o maria lisboa um pouco mais desinibidos (desencontro do pessoal) e fugi com o dingling (é bom o amor transformado em amizade!) para o fufex (brincadeira de alguém, sem ofensas pq adoro o freak maminhas!) e daí para o trumps até às sete da manhã onde tripei a dançar tudo com todos, o adar, a amber, o marcelo... café e pastel de nata para baixar o excesso de álcool, a manhã de chuva e sol translúcida, acordar para ver a casa nova do mano na outra margem, café na aldeia galega, regresso dormitante, queijo e vinho em monka's home nas tarefas domésticas, a sagrada fruta da salvação!

Até Já

Fechado para Jantar / Balanço
Voltamos dentro de momentos...

19.04.08 - 15.34h: Ego Sincronicidade


Os planos furados são sempre os melhores. Supostamente eram os GNR com a banda da GNR e ficámos a jantar caril de legumes com a belisa na "nossa" casa. A necessidade de uma ordem criada pela nossa consciência - as palavras para que as entendamos como o filme desta tarde (bee season) - o mercado antes discográfico, agora musical, os irmãos "ovelhas negras", agora os mais sensatos a dar conselhos porque já criaram a sua independência de espírito porque as cabeçadas da vida lhe deram a sua prática, os amigos por essa mesma razão de afinidade.

Sempre a somar, quase em contagem decrescente na regie depois de algum bourbon de tenessee williams e beedees, levam-nos sob o temporal às rotundas de queluz (enquanto o inconsciente desliga, centrar o plan du jour, previver, passo a passo - técnica de concentração positiva, de mudança) - e as voltas de estômago depois de snooker com moldavos levam o libelinha mais cedo para a cama após vómito e a um passeio nocturno na aberta que se gerou (de propósito ou fui eu que a causei?) até à amadora.

Já agora: uma conta de net a quadruplicar leva-me a pensar a continuidade de tudo isto, o meu estilo de escrita e a discriminação deste extracto (a questionar).

Quero levar um pouco de mim, quero conhecer as vossas caras, quero-vos... muito!

17.04.08 - 13.42h: Get a HairCut and Get a Real Job

Estou no cabeleireiro da estação do oriente. Uma guitarra toca o cielito lindo e afins flamencos, e o rapaz de óculos, todo de preto, escova suavemente a cabeça de um senhor com mechas brancas. A cortar estive eu, bobines intermináveis e rasgar selos do IGAC, ensacar dossiers e à tarde, todos a carregar sacos para a recolha. Ontem um mail - actualizações de alguns anos, a mágoa das cidades distantes, o amor único.
Estas viagens de comboio matinais trazem-me de regresso a lisboa, ao verdadeiro sentido urbano que tive nove anos, esta lufa-lufa de multidões aos magotes, cuspidos à hora de ponta e ao almoço. O cimento, a chuva e a ausência de cor, o moderno, o estilo e o brilho, a velocidade e o bate-papo de circunstância em banais momentos de convívio.

Entar pelo lado dos homens e não das senhoras (como eu fiz!) e aguardar enquanto escrevo no bloco. A clau não sabe do bisnog, ele não atende (estou preocupado!), a mãe informa que chegou o aviso de recepção da câmara de loulé, a rita confirma os valores a pagar antes de sair da inde; à noite bissa e lols para um programa qualquer.
A destruição está quase a terminar e pedem-me para catalogar o novo (e curto) arquivo. Que necessidade têm os chefes de destratar subalternos? A afirmação de poder? Palhaços (sem ofensa para os próprios - hoje, a meio da manhã sobre a redução de custos). O problema é que até aqui se passa o mesmo: os tios campónios do rapaz aparecem par cumprimentar e ele tem de ouvir as bocas irónicas da gaja da caixa.
Enfim, a nossa animalidade e estupidez sai pela boca sem controlo.

Post Scriptum: No final do dia, leilão entre funcionários e mini-rave. Deram-me alguns singles e colectâneas, como este:


Hot Chip - Ready for the Floor

17.04.08 - 00.28 / 00.57h: Keep Moving On



Puxadinhos estes dias... E como à noite queremos estar com as "pissoas", chegamos tarde e cansados - a sala de 900m2 está quase evacuada e o espaço de 300m2 já está a funcionar. Lembrar que a doca dos olivais foi reabilitada há dez anos dá que pensar, ao admirar toda a arquitectura funcional a toda a volta, limitada no horizonte pela linha da ponte. Ontem jantar com monka, só nós, conversa de vida e dv'djaying no braço de prata (cohen, goldfrapp e bowie); boleia de libelinha com careless whispper aos berros no regresso. Hoje copo de espera no british do cais do sodré e jantar de birthday da minerva (de calças de ganga) com rebecca e zé gato, que gentilmente me levou a casa para dormirem juntos (ou não!).



É tão fácil morrer... ou deixar morrer... ou não conseguir viver (nunca) como se quer. É difícil vivermos só (só?) com o que temos, porque não valorizamos, não re-utilizamos, consumimos sem pensarmos, no que fazemos ou noutras funções a dar (ao que fazemos), noutras possibilidades, todas as possibilidades. Basta pensar nelas... ou querer... e sonhar... ("abra a sua mente - canal infinito"). Muitas famílias desconjunturadas onde a higiene mental se compara à física, onde os afectos morrem porque não foram aprendidos - desenvolvidos, tal como as formas de comunicação, reproduzem-se - e a intervenção muitas vezes não ajuda. O mundo estica e encolhe no modo como o sentimos, neste palpitar de situações que passam dentro e por nós.

Apanhei sol, apanhei chuva. Voltei a ver o bruno e espantei-me com o que descobri, todos quem descobri, depois de o conhecer. Afinal estamos todos aqui! E o sporting ganhou 5-3 ao benfica! (o que quer que isto signifique!)

14.04.08 - 00.01 / 00.14h: Ao Pai

Quarto filho de um proprietário de terrenos e gado de salvaterra do extremo; depois da primária vai para o seminário de alcains por oito anos. Segue para os quatro anos de teologia dentro do castelo de marvão. No último ano, um conflito com o professor de história (por uma visita de raparigas) leva-o para o algarve a mando do bispo de castelo branco e portalegre, futuro bispo do porto. Chega a faro onde entra como aluno, depois professor. É ordenado em dezembro e às quintas (que não há aulas) e domingos vai para a serra do caldeirão numa localidade chamada ameixial - Começou a paixão! Depois, pelo espírito missionário, fica encarregue do "herege" concelho de alcoutim. Sem condições, inicia um trabalho pioneiro: do renascimento religioso à criação do ensino para além do obrigatório (o actual 2º ciclo), que abre portas aos filhos de uma região pobre e analfabeta.


Continuação, dez anos depois, cinco do seu falecimento...


Escreveu ao papa para pedir a saída da igreja porque se tinha apaixonado pela filha da senhora que limpava a casa e tratava da roupa e queria casar; comprou a casa rosa para criar a sua escola no piso térreo onde leccionou até à reforma, cuidou da sogra na sua incapacidade como se da sua mãe se tratasse, continuou a ir à missa onde comungava pela sua própria mão e acolhia todos os sacerdotes que ali chegavam; corria e participava nos comícios pós-revolução como fazia antes com casamentos e baptizados por todas as comunidades onde passava, acrescentou ao prédio o espaço para uma cantina, realizava o transporte escolar com a sua mercedes e ia à vacaria buscar o leite para os meninos lancharem; deixou a sua biblioteca e registo fotográfico (a conservar) como prova da sua avidez de conhecimento para chegar a Deus - Amor.


(dele herdei uma covinha no queixo, o silêncio e a contemplação, a pacata impulsividade e sociabilidade, o gosto pelo cuidar das coisas, a tudo perdoar)

13.04.08 - 21.30h: Nada se Repete

Os últimos dois dias da semana foram passados como uma reencarnação de shiva com mãos de tesoura, cortando fitas magnéticas e cd's, a carregar e arrumar dossiers, economato de papelaria e águas ( a vicky ajuda nas mudanças da jania); material de promoções, caixotes, prateleiras e escadotes, sacos pretos de resíduos separados para a parque expo. Recusar jantar com monka por cansaço (mãos, pés, ombros, costas) mas sair com dingling e libelinha: trajecto do século, da rosa, dos mouros, da atalaia. Mahjong, mexe e purex. Gente.



Seguir cedo/tarde para sul. Classe no ouvir 106.2 e aulas diferentes de jarvis cocker (live bed show e dingling no ouvido e os ruis da minha vida). Vir jantar com fados - toya, ondina e flora - e a fina flor da vila e as minhas gémeas (desenvolvimentos administrativos e jurídicos sucedem-se). Frio na rua. Dormir na cama de ferro, café no sr. mário e na zambujeira, regresso a casa por almodôvar - os três elementos humanos da família reunem-se para celebrar aniversário do pai ausente, tratar de papéis urgentes, recarregar (algumas) baterias, lavar a roupa suja (ouvir o marcelo defender o programa da fernanda câncio sobre bairros clandestinos na rtp)... Viver...

10.04.08 - 00.49 / 01.21h: Alguém tem de Ceder

Registar-me no banco de emprego público para porto, porto de mós e loulé; enviar requerimentos para irmão imprimir (poderia ser uma lista de tarefas mas foi a noite aqui ontem). Vindo de manhã do centro de saúde da venda nova (sim, desta consegui outra carta mas uma falha eléctrica encravou o sistema administrativo - voltar lá cedo!) pensei na população idosa que ali estava e ia passando, e estando nos cafés e a andar devagar, e a não entender a ordem das filas e dos números (eu também não quando mudam os critérios e os balcões não são especificados) e doentes, e sozinhos... somos cada vez mais velhos e mais jovens até mais tarde, demais.


Passo o CNO gustave eiffel (deixar pessoalmente currículo) e quando vou comprar pão debatem-se os assaltos mais frequentes pelo bairro do bosque (e o taxi, e o meu carro, e a loja). A vicki liga a dar-me o novo número. Banho e almoço rápidos, pedir para tirar a carrinha do talho da esquina para conseguir sair e seguir para a ex-pó com reggae-dub do báltico, à moda de kusturica (i get all the girls, i get all the girls). Estacionar, enrolar e ligar à alma. Atravessar o seco passeio de ulisses - coffee break before start - no café di roma debaixo do acesso ao ocenário, com as torres do vasco da gama no horizonte cinzento.


O vento venta violento e incessante; os pinheiros revigoram polinizando-se à distância. As pessoas enquanto vão sozinhas, mexem nas teclas, nos botões... e falam sozinhas...


Um biscate nas mudanças da emi. Pagam-me para destruir um arquivo audiovisual e separar os recicláveis do material de registro. Espero. Fumo. No hall dos cartazes das estrelas ouve-se "Como se diz à consignação?", "À consignation!" respondem-lhe. Entra o camané, cumprimenta e passa para o interior de secretária e monitores e uma serena revolução. Encho vários sacos pretos para levar os resíduos (ah dona mila, o que me ensinou alfama!...) e vou buscar as meninas: a bissa em dia mau de auto-desconfiança e a pops de jantar, compras, rápido, dormir, amanhã, felizes em jazz-soul crooners.


- again.

09.04.08 - 02.08h: Federico y sus verdes años


Cipreses.
(Agua estancada).

Chopo.
(Agua cristalina).

Mimbre.
(Agua profunda).

Corazón.
(Agua de pupila).


Me miré en tus ojos
pensando en tu alma. Adelfa blanca.

Me miré en tus ojos
pensando en tu boca. Adelfa roja.

Me miré en tus ojos.
Pero estabas muerta! Adelfa negra.


El remanso del aire
bajo la rama del eco.

El remanso del agua
bajo fronda de luceros.

El remanso de tu boca
bajo espuma de besos.


Ya viene la noche.

Golpean rayos de luna
sobre el yunque de la tarde.


Ya viene la noche.


Un árbol grande se abriga
con palavras de cantares.


Ya viene la noche.


Si tu vinieras a verme
por los senderos del aire.


Ya viene la noche.


Me encontrarás llorando
bajo los álamos grandes.
Ay moren(o)!
bajo los álamos grandes.


Primeras Canciones 1922 - Antologia Poética por Ernesto Sábato / Ed. Losada Bs.As. 1998


Correntes