Up, up and Away...
Empire State Building Observatory - 18$
"And my heart will go on..."
...é que a vida não para, mesmo que estejas no mesmo lugar...















Dos mais curtos ramos laterais até aos mais compridos e pesados, que pendiam para a propriedade do lado, com o cuidado de não deixar que caíssem sobre os diospiros quase maduros da Tia Parreira, estivémos os dois irmãos como Humpty-Dumptys (eu até pulei o muro para esperar a queda e retirada de mais uma pernada no outro lado), enquanto o hábil e jovem vizinho subia e descia o escadote, seccionando pouco a pouco aquele ser já sem vida. Para a última (e a mais grossa) coluna vegetal, foi decidido retirá-la arrancando-a do solo, separando-a das suas entranháveis raízes; e para tal começaram a cavar ao seu redor com o sacho que forçosamente fez uma vala e mais facilmente cortou as partes ocas e pútridas das umbilicalidades da planta. Participei um pouco nesta parte e depois, empurrando juntos com o balanço o já pouco firme tronco que por fim tombou, e erguendo-o e repetindo a acção para o lado oposto, este se separou de vez da base que o sustentava. Subi cheio de serradura fresca sobre a roupa e cabelo e com os pés colados pela lama às sandálias, quase sem fôlego, lavei as mãos no lava-louças e deixei-me ficar sentado na poltorna da sala, vendo as revistas do dia, intervaladas pela contínua emissão televisiva e o intermitente som do corte vindo lá de baixo – as janelas sempre abertas, à noite a mãe dorme com o mata-moscas ao lado.
O jantar foi o mesmo do almoço com os tios e os primos na casa dos avós, por eles ocupada, na outra aldeia (onde nasci). Bebemos vinho caseiro; a tia e os primos acharam o macarrão com carne muito picante (o mais novo, porque foi comer depois de todos, originou a cena cómica de comentar isso mesmo, e de todos já termos as desculpas discutidas para repetir como resposta: “é da banha e do cravinho!”, ou “não está nada, bebe mais coca-cola!”). Café com jornais para sobremesa e passeio a pé para desmoer. Chegados à porta de casa, cruzámos viaturas - era a Guida que comeu em minha casa uma sopa enquanto eu tomei novo banho, fomos a Mértola beber um copo e falámos das viagens e do sentido da vida.

Domingo 24
Já sentiram incómodo pelo facto das pessoas que falam convosco utilizarem tantas moletas e lugares-comuns, ditos e frases feitas (queres desligar e as palavras não saem, com medo de as reproduzires assim, e elas continuam e não consegues deixar de seguir escutando)? E também assustados com o avanço tecnológico, violência, morte e guerra, hipocrisia política misturada com demagogia e interesses privados, a demasiada relevância mundial do factor económico, a imparável explosão demográfica e o “onde é que vamos parar?”. E digo parar literalmente falando: quando é que travamos a fundo (com embraiagem)? Penso no exílio ou em tornar-me ermita, num lugar profundo e elevado. Pronto! Já começou a minha contradição, o meu mal de nascença, de ver o feio na admiração com que os outros comentam alguma coisa que consideram bem ou bom, e o desculpar, justificando-o na minha controversa racionalidade, o que eles tanto criticam (por vezes de forma colérica, quando me parecem meras futilidades). Irrita-me o quotidiano e gosto do tique-taque dos segundos de um relógio em pleno silêncio – marcou-me a visão cinematográfica d”As Horas” (e escutar a banda sonora no Ateneu, na
calle Florida, num leitor múltiplo digital, entremeado pelo gosto clássico do Eric).
Por vezes suponho-me no disfarce de esquizofrenia da Woolf (a mãe, em mais uma tentativa de compreensão, comentou a notícia de que esta enfermidade está relacionada com a idade do esperma paterno; eu ri-me e neguei-o mas não sei... é como com as bruxas...), digo à Guida e ouço-o (me) na minha voz dizendo que não caio, que plano entre os humores maníaco e depressivo, que só preciso de saber o que quero fazer e aí aplicar todas as energias, que isto é um arrastamento da cronicidade da minha situação, que “there’s more to life than this” – que agora escuto. Cada vez aprecio mais o trabalho da Björk e do Thom York
e a sua evolução, que dá os sinais previsivos da sociedade globalizada desta espécie condenada a uma era de aquário explosiva e individualizada, que ainda tem de s
e iconoclastar muito mais.
Hoje amanheceu mais fresco e as nuvens acumularam-se ao entardecer. Quando a mãe saiu para a missa (daqui a dois fins-de-semana comemoramos o primeiro mês da avó e o primeiro ano do pai e por isso considerou uma boa altura para o regresso às celebrações comuns, se bem que me perguntou se ia muito decotada pelo casaco do fato. “Tem alguma coisa por baixo?” Ela respondeu que não, eu desaprovei, sugeri uma blusa mais fina já que tinha calor, foi trocar-se e eu preocupei-me pelo seus desejos, pelo futuro e vi os meus genes), o irmão perguntou-me se tinha ido às salas de baixo pois os gatos entraram pela porta “en el olvido de su cierre” e deitaram uma gaiola abaixo onde apenas ficou um periquito, o outro voou ou foi comido segundo a sua hipótese, o que foi confirmado pela prova de uma asa encontrada pela mãe na varanda. E a suspeita dos gatos que vão deixando o seu rasto macabro – ontem foi uma cabeça de rato! – e que têm nomes humanos e que a mãe insiste em falar com eles dessa forma, numa infantilidade como se os bichos entendessem ordens e tivessem esta absurda complexidade emocional e linguística, apenas denunciando a sua solidão e permanente necessidade de carinho. Aqui estamos. Os três (como um grupo de amigos, como personagens de literatura juvenil, de aventuras) com seis gatos de personalidades distintas – por falar neles, o Quico de há duas gerações atrás (é que são várias gerações por ano) reapareceu há quatro dias depois de dois (ou mais) meses de ausência pela nova ninhada da sua irmã que o expulsou para não assassinar os seus pequenos sobrinhos – quatro canários, dois periquitos e algumas dezenas de rolas (bravas, brancas e de colar), duas laranjeiras (uma é sobrevivente de uma enxertia mal feita), um limoeiro, uma nespereira e um abacateiro num casarão cor-de-rosa. E vivos!

Ontem a descrição do Astrólogo da sua almejada sociedade dividida e apocalíptica, um d”Os Sete Loucos” de Roberto Arlt, e o delicioso início de um amor n”O Jardim do Éden” do Hemingway; hoje uma comédia medíocre da adaptação do Tarzan, o jogo do S.L.Benfica, depois os Simpsons, a seguir: um director musical motoqueiro no São Carlos, a Imago do Fundão com gente bonita, música, arte e filmes, três projectos digitais de vídeo, uma instalação com cadeiras, uma loja de All-Stars e sapatos vintage no Porto, a música dos i-uik-project, tudo isto como conteúdo do Pop-Up. E ainda o 1, 2, 3 com a Teresa Guilherme, o jogo do F.C.Porto, o quintal dos ranhosos em simultâneo com a quinta das celebridades, uma entrevista no clube dos jornalistas com o actual presidente da Gulbenkian e anterior presidente da Galp; por fim alguma coisa para terminar bem este dia – A Maldição do Escorpião de Jade.
Ufff... Isto tudo na televisão enquanto restaurava a media library deste computador, intercalado com uma tentativa da Guida para ligá-lo à Internet, muito cirandar pela varanda, salas e corredor, uma cerveja nas bombas de gasolina, dois bêbedos (um deles o famoso avô da miúda desaparecida da Figueira) a meterem-se em cena, e para terminar a visita de uma mãe vizinha que está a tirar unidades capitalizáveis (e fez serão aqui para a mãe lhe ajudar com os T.P.C.’s) comentado as suas motivações e a situação dos seus filhos – um deles homossexual desde quase bebé e que agora com 12 anos não quer voltar à psicóloga e já perdeu dois anos na escola por défice de atenção e por ser gozado pelos colegas – e interrompido nesta conversa pelo timing do irmão para ver o Herman e o Joaquim Monchique na televisão. Suspiro e volto às letras no papel.
Fim.
*Weak Wick Week End